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Diário de uma Caçadora

Diário de uma Caçadora

Ser Mulher de um Caçador...

Sabemos o que é ser Caçador. Conhecemos o que sentimos, o que experienciamos, as dificuldades e as coisas que de melhor nos acontecem. Podemos explicar tudo de uma ponta à outra, sem nervosismos ou gaguejos, mas creio que há uma coisa que deixa o coração de qualquer caçador (e de qualquer ser humano) mais pequenino e palpitoso: a família!

O que pensará a família de um caçador? O que pensará a mulher de um caçador? Aquela que está sempre a seu lado, que todos os dias se deita na sua cama e que aquece os pés junto a ele? O que sentirá essa mulher por ter um marido caçador? O que experiencia? Quais são as dificuldades? Será que há vantagens?

Decidi falar com algumas mulheres de caçadores que conheço… Umas que gostam mais da caça que outras. Umas que a vivem mais que outras. Umas mais velhas, outras mais novas. Umas com filhos, outras sem tal responsabilidade.

Sorria enquanto lia o que me escreviam e diziam. Sorria, ao pensar que há uma coisa em comum com todas as mulheres dos caçadores: o amor que nutrem pelos seus homens! E por esse amor, sabem que vale a pena! E talvez essa simplicidade seja tudo o que necessitamos na vida…

 

Não vou falar em nomes. Não vou mostrar caras. Não vou identificar pormenores que nos levem a perceber quem é quem. Não importa a identidade, importa o que disseram e começa simplesmente com…

 

Ser Mulher de um Caçador é...

 

Ser mulher de um caçador é ser resiliente. É saber aceitar. Muitas vezes é esquecermo-nos de nós próprias pelo outro que se ama. Por vezes é solidão. É companheirismo e apoio. É sofrer à distância, sem saber se existe vitória ou derrota, se a felicidade enche o coração ou, pelo contrário, este é inundado de desalento e de “podia ter feito melhor, não deu…”. Ser mulher de um caçador também é um “posto”. É coragem. É honra e alegria e partilhar esses momentos a três (eu, ele e o cão). (M.)

 

Ser mulher de um caçador nada mais é do que respeitar o que para ele é mais do que uma grande paixão, é um estilo de vida. Vinha de uma família onde a caça era algo desconhecido e, por isso, foi um grande e gratificante desafio perceber o que a caça significava para o meu marido. Quando eu o conheci, ele já era caçador há mais de 20 anos. Como ele teve de parar por um tempo, devido a um longo tratamento de uma doença, quando tudo estava terminado, a minha grande felicidade foi voltar a vê-lo caçar. Para mim, tudo ficou mais claro quando o acompanhei uma vez numa Prova de Santo Huberto, que nada mais é do que um ato de caça, com a participação de juízes. Quando vi isto pela primeira vez, e vi o que a nossa cadela era capaz de fazer no campo, fiquei completamente rendida. E passei a acompanhá-lo sempre que podia. O número de cadelas lá em casa foi aumentando e a dedicação do meu caçador também. Logo, a minha felicidade de vê-lo feliz… também. (R.)

 

Ser mulher de um caçador não é difícil, desde que se respeite a vontade do outro. É claro que numa fase inicial, quando não se tem nada, gasta-se bastante dinheiro em adquirir tudo e pensamos “bem, com esse dinheiro poderíamos ir de férias ou passar um fim de semana diferente”. Mas ver o prazer que lhe dá a caça e o prazer de trocar experiências com outras pessoas, acabamos por retirar algum prazer disso também. E depois há outra parte: a ajuda. A ajuda entre os dois, o apoiar uma atividade que ele gosta. Acho que ser mulher de um caçador é isso mesmo. Apoiar o gosto. Porque se eles saem para a caça e sabem que, quando regressam, encontram alguém zangado… Acabam por perder o gosto. Digo-o por experiência própria, quando ficava chateada, ao início. Resumiria tudo nesta frase: Não te limites a ser mulher de um caçador, torna-te numa caçadora! (A.)

 

Antes de mais, quero dizer que tenho um incomensurável orgulho no meu marido. Ser caçador é apenas mais um contributo que o dignifica. Penso que muitas das atitudes demonstradas enquanto caçador também se repercutem na sua vida profissional: o espirito de persistência, de luta, de pró atividade, de honestidade e respeito. Confesso que a sua paixão pela caça mexe bastante com a nossa dinâmica familiar, a forte determinação de colocar em prática uma gestão sustentável dos ecossistemas, onde ele pratica o exercício da caça, sobrepôs-se à vontade e necessidade de aproveitar o tempo livre para descansar do stress da vida empresarial. (MC.)

 

Ser mulher de um caçador, no início, não foi fácil. Talvez porque não compreendia o sentido da caça, não sei… Mas o que parecia ser um grande problema, deixou de o ser quando conseguimos conciliar as nossas coisas, os nossos assuntos, a nossa vida. Ele consegue ter tempo para a caça, mas também tem tempo para mim e dá-me a atenção que preciso. Por isso, hoje em dia, posso dizer que ser mulher de um caçador não é difícil! Tive simplesmente de aprender, compreender e respeitar o que é a caça e o que significa para ele. Se sempre foi a sua paixão, não era eu que iria mudar isso. E ele aprendeu a respeitar e a perceber que também eu preciso da disponibilidade e do tempo dele para mim, para as minhas coisas. Os dois juntos aprendemos a viver à nossa maneira. (S.)

 

Ser mulher de um caçador é estar disposta a todo o ritual que envolve a preparação de uma época/dia de caça, desde o tratamento dos cães, ao vestuário, passando pela ajuda na preparação da “tralha” ou do almoço para o dia seguinte – que, para muitas pessoas passa por uma simples sandes e algo para beber mas, para o grupo de caça do meu caçador vai muito além disso. Eles fazem uma espécie de piquenique em larga escala, com uma simples carne de vinho e alhos a um rancho transmontano. A caça, segundo o meu caçador, vai muito além do que trazer uma peça para casa. Sei que na época de caça terei dias que serão passados sem ele, mas ele está a fazer o que gosta e sente-se feliz; e se ele está feliz eu também estou. No final de um dia de caça, espero ansiosamente a sua chegada, para saber que peripécias tem para contar e se correu tudo bem com ele e com os nossos amigos de 4 patas. Às vezes chega mais alegre do que outras, e costuma dizer “um dia é da caça outro é do caçador”. No geral, diz sempre que o mais importante foi divertir-se e não se ter magoado; o mais importante foi o convívio e acima de tudo ver os seus cães a trabalhar e a disfrutar daquilo que nasceram para fazer. (V.)

 

Ser mulher de um caçador é ter-se orgulho naquilo que se é. Apoio sempre que posso! (G.)

 

Ser mulher de um caçador é muito gratificante, tendo ele uma vasta experiência neste campo. (T.)

 

 

Vantagens?

 

Às vezes tenho umas mini férias. (M.)

 

A principal vantagem de ser mulher de um caçador, no meu caso, que o acompanho sempre que posso, é conhecer lugares incríveis por Portugal e Espanha, que nunca iriamos se fosse uma viagem comum de turismo. Por cada terra que passamos fazemos amigos, conhecemos pessoas genuínas e fantásticas; desde gente do campo até presidentes de juntas e de câmaras que sempre recebem bem estes eventos. Por cada região, provamos sempre a gastronomia local. Adoro estar próximo de culturas tão diferentes das grandes cidades. (R.)

 

Muitas! Nota-se que é uma atividade que lhe dá gosto, prazer e vontade de aprender e melhorar a cada caçada. Gosta de ouvir os conselhos dos mais experientes e conhecer pessoas diferentes. A juntar a isto temos sempre carne boa para eu me dedicar a inventar na cozinha (algo que adoro). E neste momento temos também os nossos meninos (os cães). Fazem parte do nosso projeto de vida. (A.)

 

Ter sempre carne deliciosa para confecionar e comer, pois gosto muito de qualquer tipo de caça. Adoro fazer jantares ou almoços de caça para os nossos amigos, não só pelo convívio, mas também por saber que todos apreciam o que faço. (S.)

 

Não sendo eu caçadora, mas pelo que vou presenciando e assistindo as suas vivências e de alguns amigos neste meio, acho que os torna pessoas mais conscientes, quanto à natureza e a tudo o que a envolve. Têm um grande respeito por tudo o que se passa na natureza. Ele adora ir ver as perdizes e vai dar-lhes trigo. Gosta de ir ver os coelhos a saltar ao amanhecer. (V.)

 

A parte que mais gosto são os cães. Adoro quando temos alguma ninhada, apesar de dar muito trabalho, mas nós adoramos. Também adoro ir com ele às provas de caça e, quando não posso ir, sou a primeira a dizer-lhe para ir. (G.)

 

 

O que é que mais custa?

 

A única coisa que me custa são as longas viagens que por vezes ele tem de fazer sozinho, quando não posso acompanhá-lo. Fico sempre com uma pontinha de preocupação. E também me preocupa o facto de que ele ou as nossas “meninas” se magoem. Mas… ninguém está livre disso, mesmo ficando em casa. (R.)

 

Inicialmente, custava-me ficava sozinha aos fins de semana ou interromper o sono pelas 4 da manhã, porque o despertador tocava e ele levantava-se. Já não conseguia dormir mais, porque sabia que ele ia fazer uma viagem ainda de noite. Tinha receio de que fosse atingido por algum caçador mais descuidado ou em algum acidente, como em tantas histórias que se ouvem. No início de tudo, quando ele decidiu ser caçador, senti que ele me estava a “trocar”. Nessa altura cheguei a chatear-me, confesso, mas depois percebi que não era nada disso. Era um escape para ele, uma forma de desanuviar de toda uma semana de trabalho e uma forma de fazer, por exemplo, atividade física ao ar livre. (A.)

 

Inevitavelmente, a família vê algum do seu tempo de convívio reduzido. Contudo, isso não é forçosamente mau, antes pelo contrário, foi encarado como um desafio a mudanças de certas rotinas, pois “Família” que é verdadeira família procura que todos se sintam felizes e realizados! Além de que a quantidade de tempo juntos não é sinónimo de qualidade das relações. Mas é óbvio que não há bela sem senão e, portanto, objetivamente aponto que sendo um agregado familiar em que o sexo feminino está em vantagem numérica e, como tal, adora viajar, reclamamos do constrangimento provocado pela caça na marcação de férias em família, pois até quaisquer programinhas de fim de semana estão completamente condicionados pelo calendário venatório. Mas depois o pai/marido compensa. Não constituindo em si uma desvantagem, por si só, não posso deixar de referir o quanto por vezes me sinto triste por ver nos mais diversos órgãos de comunicação social comentários depreciativos acerca da caça e dos caçadores, falando erradamente sobre uma arte que desconhecem e sem a qual a espécie humana não teria sobrevivido. Começo a sentir que a minha liberdade está a ser posta em causa e descredibilizada por pessoas que se sentem superiores ao exalarem uma sensibilidade excessivamente parva! (MC.)

 

Por vezes sinto falta de um fim de semana só para mim. É a única desvantagem e dificuldade que encontro. (S.)

 

Custa quando está um dia de temporal e ele sai de casa bem cedo, ainda de madrugada, para um dia de caça e não sabemos o que poderá acontecer. Pode acontecer algum acidente com a espingarda. Por mais cuidadosos que sejam, os acidentes por vezes acontecem. Outra coisa que custa muito é, por vezes, querer partilhar um domingo com ele e não ser possível. Mas depois compensa-me sempre, mesmo cansado, costuma fazer um esforço e leva-me a jantar. (V.)

 

 

O que se torna diferente na tua vida?

 

Eu pensar que iria tirar também a carta de caçador. Comecei a ir com ele aos tordos e às montarias, pois nunca senti que ele me excluísse da caça, assim como também nunca o fez com a pesca. Aliás, ele próprio insistiu para que eu tirasse a carta de caçador, para o acompanhar ainda mais. Se me sinto deslocada neste mundo? Nem por isso! Sempre fui muito bem-recebida na reserva onde ele caça e sempre recebi muito apoio da parte de todas as pessoas de lá. Pensando bem, acho que não há nada que um faça que o outro não faça… Ou pelo menos que eu sinta que não posso fazer por ser mulher, ou por sentir que vão pensar que não o largo. Acho que nunca podemos dizer que “não gosto” ou “não é para mim”, se não experimentarmos. Se é duro? Sim, a caça em geral é dura. Já andei no campo, sei que não é fácil, muito menos com cartuchos e uma espingarda nas mãos. Mas tudo se ultrapassa quando percebemos que gostamos mesmo daquilo. (A.)

 

Era difícil, no inicio, não termos um domingo em família ou um domingo só para nós. Para fazermos coisas juntos, fosse o que fosse (um simples passeio à praia ou um simples almoço a dois), era muito difícil, não havia disponibilidade da parte dele, pois não estava em casa. Hoje em dia, digo sempre a rir que os nossos fins de semana românticos são sempre a correr atrás de cães. Sempre pensei que para ele a caça era mais importante que eu, até perceber que a caça é uma arte bonita de se viver. Saber que a caça o faz feliz, faz-me feliz a mim também. Depois de um dia de caça, ele chega a casa muito descontraído e bem-disposto, e faz-me rir. É o que preciso para ser feliz. Depois conta-me o seu dia; muitas vezes nem trouxe uma única peça de caça, mas está feliz na mesma, vê-se no seu rosto, Para mim isso é tudo! (S.)

 

Partilho a minha vida com uma pessoa que se sente feliz por fazer aquilo que gosta, que adora estar ao ar livre. Sinto-me feliz e orgulhosa por vê-lo tratar tão bem dos cães. Vejo que ser caçador é um modo de vida que ele adotou, por isso tem o meu incondicional amor e respeito. Ser caçador não o torna diferente, no mau sentido, como muitos julgam. Ele sente-se triste, por vezes, quando vê pessoas a difamar os caçadores sem saberem do que falam. Mas eu tenho aprendido muito com ele sobre a caça e entendo tudo aquilo que ele sente e, por isso tudo, acho que ele ser caçador fá-lo ser uma pessoa ainda mais especial. (V.)

 

 

Porque é que são uma Família diferente?

 

Ter um marido caçador não é melhor nem pior, mas sim diferente. Somos uma família diferente, porque passamos mais tempo que as demais a observar e a cuidar da natureza. Somos uma família diferente porque damos mais oportunidade aos nossos cães para serem felizes a andar no campo e a treinar os seus instintos naturais. Somos uma família diferente porque damos valor ao esforço, habilidade e inteligência do pai e dos nossos cães para caçarem a quase totalidade de carne que ingerimos. Somos uma família diferente porque promovemos frequentemente convívios com imensas pessoas bem-dispostas e que compartilham a paixão saudável pela caça, muitas vezes, contribuindo para projetos de solidariedade. (MC.)

 

Talvez porque somos os dois caçadores. Ele é sempre mais e mais exigente comigo. Como mulher de um caçador, vou cingir-me apenas à minha primeira caçada pois, se não tivesse um marido “diferente” também não teria passado por tal dia maravilhoso. Já gostava de caça antes de o conhecer, mas nunca tinha tido oportunidade de caçar, via somente em programas de televisão e alguma informação na internet. Bem… O tal dia… Fomos para o Algarve, a uma caçada aos tordos. Primeira dificuldade: o levantar cedo às 3 da manhã. Às 6 da manhã chegamos. Comemos qualquer coisa, fizemos a dita inscrição e fomos então para o campo, numa carrinha onde eram 11 homens e eu a única mulher. O frio congelava as minhas mãos. Entramos no campo e o “meu caçador” pediu-me ajuda para organizar as coisas. Mais uma aprendizagem para mim, que não sabia como se montava um abrigo ou como se preparava uma espingarda. Estava a anos de luz do que realmente era a caça. Ouvimos o tiro que iniciava a caçada e, de repente, o mundo lá fora deixou de existir. Os meus olhos não paravam. Os tordos entravam por todo o lado. Foi uma manhã alucinante. Às 11 da manhã acabou e eu carreguei as peças de caça toda eufórica, como se tivesse acabado de caçar tudo aquilo. Gosto e faço questão de acompanhar o “meu caçador” porque é um caçador exigente para com ele próprio e eu aprendo muito, sem dúvida. (T.)

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O poder que o Amor tem... O verdadeiro amor... Talvez seja somente isso o segredo para o sucesso de uma relação! Esqueci-me de perguntar às minhas queridas mulheres; mas ficará para uma próxima!

Obrigada do fundo do meu coração a estas grandes Mulheres que se disponibilizaram prontamente a responder a todas as questões e a ajudar-me. M., T., M.C., S., R., V. e G. Ainda bem que existem mulheres como vocês no mundo! É por isso que certamente têm os homens que têm!

ML.

 

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